Satya, a verdade
Na Espanha do século XVIII a adolescente Inés Bilbatua, após torturada pela igreja, declarou falsamente ser uma herege, permanecendo quinze anos presa. Este é o retrato do filme Sombras de Goya, do diretor Milos Forman, baseado em fatos reais. Não apenas naquele período, como em muitos outros na história da humanidade, muitas pessoas foram obrigadas a declarar inverdades após passarem por longos períodos de intensa tortura. A ditadura, no Brasil de 60, foi assim.
Após assistir este filme, fiz uma reflexão do papel da verdade em nossa sociedade. Assim como Inés, eu e outras muitas pessoas que conheço e as que desconheço, pelo menos uma vez na vida, usamos de inverdades para solucionar alguns problemas, que de outra forma, jamais conseguiríamos fazer. No caso da atriz Natalie Portman, sua personagem foi brutalmente torturada para que isso ocorrece. No meu caso e de outras muitas pessoas, nunca aconteceu algo semelhante, porém mesmo assim, sempre que possível, usamos deste artifício.
Se pararmos para pensar o quão comum é esta atitude, entenderemos porque a sociedade aceita tão facilmente esta situação.
Falar a verdade, pura e simplesmente, pode ser, em alguns casos, motivo para conflito. Muitos não gostam de falar e outros de ouvir e encará-la. Em algumas ocasiões, a verdade muda radicalmente o rumo das coisas, e isso “congela” as pessoas. Preferem esconder-se em uma mentira a encarar o problema.
O que é a verdade? Antes de achar que você e ela caminham lado-a-lado, pare e pense o quão lúcido se encontra. Há diversas verdades e há uma realidade. É fácil acharmos que estamos certos, mas a realidade nos mostra, muitas vezes, que podemos estar errados. Eu me incluo aqui. O ponto principal então, é sabermos discenir e digerir os fatos, antes de criarmos nosso ponto-de-vista.
Esta questão é tão importante, que no Código de Ética do Yôgin, uma das normas, que no sânscrito denomina-se satya, consiste no emprego da verdade, sempre. Inclui não omitir, distorcer ou equivocar-se perante os fatos. Começa com transmitir de forma autêntica a filosofia que ensinamos e se estende à forma como conduzimos nossas vidas e é de extrema importância saber expressá-la, evitando a falta de tato ao utilizá-la.
Na semana passada um amigo colocou no Facebook “ será que alguém escreve aqui o que realmente pensa?”. Gostei muito da sua colocação, pois muitas pessoas preferem não sair da zona de conforto que se encontram, preferindo ser amadas a criticadas. O simples fato de emitirem uma opinião, as deixam muito expostas. “Será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir?”. Na dúvida entre o pop ou o erudito, citei um trecho da música da cantora Pitty que toca no rádio. De alguma forma estou me expondo, correto? A gosto ou contra-gosto, utilizando a sutileza, precisamos expor nossa opinião, gerar discussão positiva, criar massa crítica e não apenas sorrir e calar-se.
Vivemos em um momento em que a internet nos dá a opção “ No que você está pensando agora?”, porém ainda tememos expor nossas idéias, assim como na Espanha do século XVIII, ou na Alemanha de Hitler, ou nos anos de chumbo no Brasil, na China de Mao, etc. A diferença é que hoje não somos mais queimados em praça pública para que todos possam presenciar. Hoje a internet tem esta função. Mas não tenhamos medo. O mais importante é conduzir a vida usando a verdade e a sensatez. Alguns gostarão, outros desgostarão. Não importa! Os frutos da sua autenticidade consciente sempre serão colhidos.


Parabéns pela coragem e pela qualidade do texto.
Acredito que a questão mais difícil em satya seja a coerência entre o pensar, sentir e agir.
Um grande exemplo de coerência foi Mahatma Gandhi. Quando este grande luminar foi convidado a falar no Parlamento Inglês, se estendeu por duas horas, sem usar anotações. Apesar de não falar aquilo que os parlamentares desejavam ouvir, foi aplaudido de pé por todos. Depois do discurso, os repórteres procuraram seu secretário, para saber como Gandhi havia conseguido tal façanha, ao que ele serenamente lhes esclareceu: “Aquilo que Gandhi pensa, sente, diz e fala é tudo a mesma coisa. Ele não precisa de anotações… Você e eu, nós pensamos uma coisa, sentimos outra, dizemos outra , e fazemos uma quarta, então precisamos de anotações e arquivos para acompanhar todas as mudanças.”
Beijos continue escrevendo. Sempre.
Dani, obrigada pelo comentário! Realmente temos que fazer aquilo que pensamos e sentimos. Deve haver coerência de fato. Não adianta ficarmos querendo agradar gregos e troianos, e ao mesmo tempo, buscar sempre o caminho mais fácil.
É amigo, a vida é um enigma….dizem que ela é fácil, porém é preciso muito swádhyáya para vivê-la plenamente.
bjos
Construir a inteligência é muito simples, desconstruir a burrice é árduo.
Como a burrice está no poder a muito tempo [direito adquirido] é mais fácil destruir do que construir.
Mas as mascaras estão caindo. É só uma questão de tempo. Quem viver verá.
legal
Obrigado por ter apagado o outro. Estou tentando desconstruir .Longe de mim querer colocar novas idéias no lugar das velhas. Idéias reacionárias nunca deram certo em tempo algum. Estou aprendendo. A verdade não é propriedade de ninguém.
Temos que estar atentos prá não cair em tentação.
Será que alguém escreve o que realmente pensa ? No século passado, geração híppie, anos 60, eles tinham uma frase que dizia o seguinte: não confia em ninguém com mais de 30 anos. Nessa idade já estamos totalmente envolvidos pelo sistema de crenças vigente. Dificilmente se encontra alguém que vá dizer: eu não sei.
Dimas, você está bem presente neste post. Obrigada pelos comentários, são sempre bem-vindos.
Sobre a frase “não confia em ninguém com mais de 30 anos”: fico feliz de ter apenas 28 aninhos. talvez ainda não esteja totalmente envolvida pelo sistema.
Será que alguém escreve o que realmente pensa? Acho que não são todos que realmente conseguem colocar o que pensam ou sentem. Questões como estas sempre surgirão.
Obrigada!
Tatiana