Uma entrevista inédita realizada pela Bravo com o personagem Édipo, por Eucir de Souza.
Os trechos abaixo são de grande relfexão (conhece o mito grego, um dos alicerces da teoria da psicanálise de Freud?).
BRAVO: Quer dizer que o livre-arbítrio não existe?
Édipo: Existe sim, mas apenas como ilusão. Nossas escolhas não são propriamente nossas. Na realidade, atendem uma lógica pré-estabelecida e tão complexa que não vale a pena decifrá-la. Comparo o universo com um imenso tapete colorido em que cada indivíduo representa uma cor. Eu desempenho o papel do azul. Tu, o do vermelho. Ele, o do amarelo. Por mais que deseje fazer as vezes do lilás ou do verde, não conseguirei. Estou preso à condição de azul. Se virasse outra cor, descaracterizaria o todo e trairia a função que os deuses me reservaram no tapete. Ou melhor: que um dos deuses me reservou.
O infortúnio que me engoliu decorre de uma maldição lançada sobre minha linhagem e acatada por Apolo. Bem antes de se casar com Jocasta, Laio se apaixonou pelo príncipe da Frigia e o raptou. O gesto tresloucado acabou resultando na morte do jovem. Seu pais, furiosos, invocaram Apolo, deus da harmonia, e vaticinaram: ” Se Laio gerar um filho, o rebento há de matá-lo”.
Naquela época, afirmações dessa natureza possuiam força de lei. Quase não havia diferença entre as palavras e a realidade.
BRAVO: Enquanto desconhecia o real status de Laio e Jocasta, você não sofria. A dor só eclodiu quando a identidade de ambos veio à tona. Seria mais adequado permanecer ignorante?
Édipo: Concordo que paguei um preço excessivo por me encarar sem máscaras no espelho. Ainda assim não trocaria o desnudamento pelo autoengano. De que adiantaria viver como um ingênuo? “Conhece-te a ti próprio”, ensinam os oráculos do mesmo Apolo que me puniu. Pensando agora no que se passou, penso o quanto negligenciei tal conselho. Fugir de corinto significou fugir do que suportava enxergar em mim. “Tu és aquele que arruinará teus ancestrais e descendentes”, avisaram-me lá atrás. Fraco e arrogante, não tolerei o peso de uma revelação tão nefasta e preferi crer que poderia modificá-la. “Eu, um assassino? Um incestuoso?”. Por isso, depois do ocorrido, furei os olhos. Talvez deixando de ver o mundo de fora, preste mais atenção no de dentro.
Peça Édipo
Teatro Eva Herz (Conjunto Nacional)
(até 21/6/2011)