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Reflexões

Os curtidores que não ousam a palavra, na liberdade da democracia em curtir por direito ou necessidade, pedem licença no processo da opinão para que não sejam perturbados com o dever da continuidade, da responsabilidade e da exposição.

Deixam uma breve marca para que não sejam esquecidos, e preferem a não exibição pela opinião. São discretos, estão nas massas, nas casas, nos muros.

São Paulo que nasci e não arredo pé. São Paulo como pessoa, com tremenda personalidade, imponente e múltipla, que atrai o melhor e o pior, querida e odiada. Sucumbo-me.

Difamam-a nas esquinas, mas não a deixam. Penso nos ingratos, todos, anos a fio por aqui. São Paulo é vício e não há nada igual. Apenas a acho tímida de sua grandiosidade. Não se subjulgue ou intimide-se. Firma-te São Paulo e aceita-te como este caldeirão. Sua personalidade é global!

Cresceu sem a necessidade da propaganda bairrista, e brilhou mais que qualquer outra. Não precisa de nomenclatura, para mim é capital. Sempre foi a capital. Não é a princesinha, é a rainha e a moradia de todos os santos.

Parabéns minha louca linda!

 

 

Me atraio pelo silêncio do vento, do mar, do descanso do meu corpo, da minha mente, do vôo dos pássaros, dos sonhos, do silêncio da felicidade e da profunda tristeza, do basta, da pausa, do ponto final.

Não quero o silêncio do medo, surpeficial, do que não se interessa, não se importa, não se manifesta. Do silêncio egoísta, da imagem que não é.

O silêncio quando querido é arte é poesia.

Há sentido em dizer que somos capazes de mudar, de sermos quem quisermos ser em qualquer espaço e tempo?

Sermos totalmente diferentes daquilo que costumamos ser? Tomar atitudes diferentes, seguir caminhos contrários?

Ou não há sentido nisso? Este sentimento de mudança é apenas um reflexo momentâneo contrário a atitudes que não desejamos e que repetidamente realizamos. Que a natureza está cravada em cada corpo e mais cedo ou mais tarde, esta natureza volta a se manifestar e, como qualquer animal, cedemos ao instinto.

Mergulhada em dúvidas, ouvi em uma coincidência absurda Nina Simone no meu computador “Everything must change”. E talvez seja este impulso consciente da necessidade de mudança que me deixou assim. Sinto-me diferente. Com vontades e interesses diferentes.

Nasci sob o signo mais mutável, com impulsos segundo a segundo, mas algo está agudo, sinto-me inclusive podendo respirar numa certeza chegando a cem de que é exatamente isso.

“Nothing stays the same. Everyone will change. No one, no one stays the same. Nothing stays the same”.

Espero que haja sentido para não tornar-me a única certa de estar passando por algo totalmente sem razão.

Um mundo todo sobre mim e meus ombros finos já não mais suportam uma poeira da terra deste mundo. Estou em cento e oitenta.

Queria que pudesse perceber o vazio oco que reflete de meus olhos. A sua escuridão e o seu silêncio. Não sou forma.

Por todos os lugares que passei, este descrevo como um espaço onde nada fala ou vê ou ouve ou sente. Sem portas e janelas e saída.

Não percebo se me percebe pois não enxergo. Apenas em sonho o descrevo. E nele me vi conseguindo erguer o mundo com coragem e não havia escuridão. Prefiro o sono. Nele meus ombros são largos e oco é o mundo.

Ao olhar-me no espelho, vejo um aumento na taxa de natalidade da espécie Cabelus brancums, ou fios rebeldes, fios grosseiros, fios branco-neve, fios que apontam em direção ao paraíso. Ótimo! Antes para o céu. Tão nascendo um atrás do outro, anti-gravidade e cheios de personalidade.

Um causo…

Minha priminha loura linda, na flor dos seus 4 anos, ao ser comovida por uma breve história de que o seu avô, com suas madeixas brancas, agora havia virado estrelinha, todas as vezes que olha para o céu, lembra da memória do avô, e para não deixar a história passar “em branco”, em um momento de total espontaneidade, tocando os cabelos do meu pai, deu a dica: “Vavá! logo logo você vai virar estrelinha”.

Como meu desejo no momento é preservar este jardim de inverno que se forma em um campo de visão favorável aos olhos de lince de minha priminha linda, loura e sábia, decidi ficar no aguardo de suas previsões sobre meu futuro em sua próxima visita.

Deixe de achar que escrevo para você. Para o atormentar, o acalmar, ou magoá-lo, fazê-lo rir, chorar, sei lá. Escrevo apenas para mim. Escrevo para entender nada mais que meus sinceros sentimentos, para afirmar as dúvidas, reafirmar as certezas. Não, jamais pedi para os ler, nem é minha pretensão que os leia, ou os interprete, tire conclusões. Escrevo com gosto. O mesmo gosto que você tem por dançar, que ela tem por ler, ou transar, ou comer, ou odiar. Gostos são gostos.

Então deixe de achar que escrevo para você ou de você. Nem digite mais estas teclas que o traz para cá. Mesmo com as portas abertas, há ainda uma distância saudável que afirma a liberdade minha e sua.

E você outro que pensa saber o significado, o motivo, o destinatário disso aqui, deixe de achar, pois as linhas que escrevo nem sempre têm significado, aliás. Repito que, escrevo com gosto. Apenas por gosto.

Num final de tarde começando, uma núvem acinzentada e densa tomou conta de todo o céu em Buchupureo, o que transformou toda a paisagem naquele momento, transformando o céu, o sol, a luz em cada canto, tudo se tingiu de um alaranjado intenso como fogo. Pensei que ali fosse o início do fim do mundo. Já estávamos em 2012!

Só na volta da viagem, após percorrer um trecho sentindo um forte cheiro de mata queimada, sem entender de onde vinha, só na volta, ao ler o jornal no avião, fiquei sabendo da destruição na Patagônia. Estava há algumas centenas de kilômetros de lá, mas mesmo assim presenciamos os efeitos daquele desastre. Quer dizer, acredito que aquilo foi o reflexo do que havia acontecido.

Meus registros do dia 1/1/2012 eram para ter marcado um fim de vida feliz, um fim de mundo mágico. Que pena que era apenas o registro de um momento trágico.

 

Em Buchupureo o vento sopra frio mesmo em tempos de verão. Estamos no final de dezembro e, quando entra o sol, entra aquele vento de gelar a espinha. Neste ponto ao sul do Chile, a natureza só sofreu diretamente com os danos dela própria.
Assim como as pessoas perfeitas inexistem, o paraíso chileno está entre as grandes maravilhas mais contraditórias para mim. Por toda a sua extensão, conto nos dedos o cinza do mar e das areias, os marrons do tempo seco nos solos e folhas, e os verdes que logo amarelam-se. Por uma breve eternidade o céu se mantém coberto por uma névoa, a não ser quando dá a vez a um profundo turqueza.
As grandes surpresas, as faixas de areias cobertas por longas algas, como serpentes adormecidas na beira do mar, as ondas que formam véus assombrados e inquietos. No horizonte marinho, as gaivotas e os leões solitários e no outro extremo, campos de pastos que abastecem bois e porcos e acolhem sertanejos.
Imagine toda uma paisagem coberta por camomilas, lindas pequenas camomilas, que como pragas atraem os mais aterrorizantes insetos para o meu desespero. Desespero contido forçosamente mesmo quando ao anoitecer, todas as luzes da cidade decidem se apagar, ficando apenas o som do mar e a esperança que no dia seguinte ela retorne.
É como se o tempo não tivesse passado por estas terras. Os sons brutos da natureza escondem o silêncio do povo que vive enraizado em uma linda tradição, do tempo que não se contava no relógio. Os chilenos desta região são índios nos cabelos, na pele, no jeito e no trejeito. São de fácil sorriso e constante gentileza.
As noites são dias por aqui, como um presente. Dias e noites solitárias, com ruas solitárias, praias e casas solitárias.
Em uma semana que começa no Natal e termina em um novo ano, recebi meu mais valioso presente. Poderia ter tido qualquer outra experiência, mas escolhi a exata. Não há nada melhor que dias no sul do Chile.

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